"O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam"

Guimarães Rosa

1 de fev de 2012

O (DES) BRINCAR NA CULTURA DO CONSUMO: Um olhar sobre o brincar na cultura contemporânea a partir de Leontiev


Jovani Antonio Secchi*
Dra. Regina Perez Christofolli Abeche**
Esse texto é fruto de uma especialização em Teoria Histórico-Cultural pela Universidade Estadual de Maringá - UEM. Analisa o documentário “Criança, a alma do negócio”, a partir de um valor disseminado pela cultura contemporânea: o consumo. Tem como referencial teórico Leontiev, autor este que se fundamenta na teoria do marxismo. Para tanto, apresenta os principais conceitos da teoria de Leontiev acerca do desenvolvimento do psiquismo. Em seqüência  aborda sobre a cultura contemporânea e um de seus principais valores: o consumo, a partir da perspectiva dos autores Z. Bauman e D. R. Dufour.  E, por fim, descreve de forma sucinta, o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, seguido de uma análise.
     Para Leontiev (2004), há diferenças significativas entre os conceitos de atividade, ação e operação. Na atividade o motivo coincide com o objetivo da realização daquela ação, e mais, ela é responsável pelas principais mudanças nos processos psíquicos da criança; já na ação o motivo não coincide com o objetivo, consiste em um fim imediato, a ação surge e se realiza. E, a  operação,  consiste no modo de execução de uma ação. No entanto, há uma relação entre eles, ao se estimular há uma transformação/mudança de um para o outro, ou seja, ao se transferir o motivo da atividade para a ação, e da ação  para uma nova forma de operação, cria-se uma nova atividade, que irá possibilitar o desenvolvimento psíquico e, consequentemente, a mudança de estágio da criança.
Já, em relação à cultura contemporânea, para Dufour (2001, p.2), o que a caracteriza é a falta de um “enunciador coletivo”, de um “em nome de”, que sirva de parâmetro/referência. Com isso, tem-se um sujeito obrigado a se constituir por si próprio, sem referenciais para legitimar e orientar suas escolhas. Nesse contexto, o consumismo tem sido disseminado como um dos principais valores. De acordo com Bauman (2001), o objetivo do Mercado vigente consiste em transformar o indivíduo em um eterno consumidor, alienando-o de sua capacidade de refletir sobre o objetivo e objeto de seu consumo. Além disso, a mercadoria tem de ser renovada constantemente, a fim de torná-la em um inesgotável atrativo ao consumidor. Por fim, o autor expõe que o consumo não está voltado para a satisfação das necessidades físicas, mas sim para uma apropriação da imagem representada no produto, fazendo com que o consumo seja alimentado por ilusões de um desejo já capturado pelo mercado.
Em decorrência desse cenário, de acordo com Abeche (2010) uma subjetividade possível de ser construída é aquela que já se encontra capturada em sua interioridade, ou seja, o que pertence à narrativa pessoal encontra-se  desvalorizado. Isso ocorre em decorrência de todos os discursos de legitimação, que são transmitidos pelas gerações anteriores e que passariam por um crivo para discernir e decidir sobre mudanças, terem sido capturados pelos ditames da sociedade do consumo e do espetáculo.
O documentário “Criança, a alma do negócio”, produzido por Maria Farinha, Marcos Nisti, Estela Renner, aborda a acerca da transformação das crianças em consumidoras. Mostra claramente o quanto que a mídia, de forma insistente, age sobre a mente das crianças a fim de implantar o desejo do consumo. Além disso, fica claro, nas falas do vídeo, a manipulação realizada nas crianças, para transformá-las em consumidoras, ao mesmo tempo em que consiste também em uma forma estratégica com o escopo de obrigar os pais a comprarem/consumirem os produtos das propagandas.
O que se constata no documentário, é que a brincadeira acaba por ser suplantada pelo consumir, portanto, não se teria mais o brincar que proporcionaria a dialética entre operação, ação e atividade. Logo, o consumo teria como seu fim maior a própria condição de apropriar-se da imagem representada no produto. Destarte, o consumo pode ser entendido como uma ação, pois, na ação, o motivo não coincide com o objetivo da realização daquele ato; assim a finalidade de se consumir equivale a  apropriar-se da imagem que está representada no produto, ou seja, um objetivo imediato.
      O que move a ação de consumir é a ideologia de que, ao tomar posse de um determinado objeto (qualquer objeto), o indivíduo estaria se apropriando de algo que lhe daria a condição de completude, tendo a ilusão de que, ao adquirir um produto, se satisfaria de forma plena em seus desejos. No entanto, como a sensação de completude não ocorre, após apropriar-se do objeto da propaganda, o consumidor percebe que o produto adquirido não foi suficiente para aplacar seus anseios. Assim, o indivíduo volta a consumir na esperança de que, na próxima aquisição, terá a tão almejada sensação de completude. Cria-se, assim, a partir dessa ideologia, um indivíduo desejoso para comprar; desse modo, estabelece-se o consumismo como uma ação, pois o motivo que lhe move para o consumo não vai estar no objeto consumido, com isso, o consumidor jamais conseguirá alcançá-lo.
       Portanto, o consumo, como representado nas falas do documentário, não pode ser considerado uma atividade, pois não tem um fim em si mesmo, ou seja, o motivo não coincide com o objetivo da realização daquela ação. Além do mais, pelo consumismo, exclui-se a dialética entre ação, atividade e operação, pois não há uma transferência de motivo da atividade, o qual permita transformar o motivo da ação; portanto, não se estabelece uma nova atividade. É justamente pelo fato de o consumismo excluir o processo dialético, o qual permitiria o desenvolvimento psíquico do sujeito, que a mídia tem transformado o ato de consumir na mais nova brincadeira de crianças, ou seja, para a contemporaneidade, a brincadeira infantil se resume em consumir.
          O que se constata no documentário é que, a partir dessa transformação do consumo em brincadeira de criança, exclui-se, em grande parte a presença do educador, isto é, os infantes passam a ser detentores de um conhecimento que se resume aos produtos a serem consumidos. Assim, com a exclusão do educador, a mediação, por meio da qual novas regras  seriam apresentadas a criança, possibilitando o desenvolvimento do seu psiquismo e, consequentemente, o avanço de estágio, não aconteceria.
      O valor que predomina, no universo da criança, nessa contemporânea sociedade do consumo consiste em que a apropriação do produto torna-se a  forma prevalente de a criança poder se diferenciar dos outros e construir sua  subjetividade/singularidade. Para isso,
não se permite que se pense, reflita sobre a atual situação e, para manter essa condição, tudo é dado de forma pronta e acabada, como se esta realidade não fosse construída. Sendo assim, tais condições não promovem um desenvolvimento a contento do psiquismo e, tão pouco, ocorreria uma adequada mudança nos estágios do desenvolvimento da criança, o que possibilitaria a sua construção subjetiva.
          Daí a importância do indivíduo conhecer o seu passado, o seu significado, para saber  a sua contribuição na construção da sua singularidade, do seu desejo, para se desalienar do desejo do outro, do outro hoje representado não mais pelos familiares, pela tradição, mas deste outro representado pelo deus mercado, também guardião do cárcere no qual os desejos capturados estão aprisionados. O passado, o presente não questionado, não recordado e não elaborado se torna fonte sofrimento e de comportamentos muitas vezes indesejados. Na atualidade percebe-se que este passado negado, não levado em consideração, digno somente do esquecimento torna o ser humano aberto para repetir e reproduzir uma série de comportamentos não desejáveis, fontes de sofrimento.

Para saber mais:

ABECHE, Regina Perez Christofolli. A que resistir? E o que criar? Reflexões sobre a (des) construção das subjetividades na contemporaneidade. In: BONAMIGO, I. S.; TONDIN, C. F.; BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.BAUMAN , Z.  O mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998._________________. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001._________________. Medo líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.LEONTIEV, Aléxis. O Desenvolvimento do Psiquismo. 2a. ed. São Paulo: Centauro, 2004.

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