"O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam"

Guimarães Rosa

8 de fev de 2012

O “EFEITO SOMBRA”

Maria Cristina Recco*
Em algum momento da vida, nos vemos em busca de algo que não sabemos exatamente o que é, mas sabemos que é nosso... sabemos quando algum detalhe que encontramos faz parte desta busca, seja numa conversa, um filme, em um livro, um momento espiritual, uma reflexão, sonho, cursos, ou principalmente, em um encontro analítico... é algo que tem a ver conosco mesmo. Este é um princípio de luz onde através dele, tentamos conhecer a nossa alma. Porém, onde tem luz também tem sombra. Conhecer a alma, também supõe conhecer nossos aspectos sombrios ou obscuros da nossa psique e, uma vez que alguém ouve falar da sombra, já não pode mais negar sua existência. Todos nós somos atacados por nossos próprios impulsos sombrios em nossas mentes ou em nossos atos. Somos possuídos por aspectos negativos da nossa alma, uma vez que todo bem e todo mal perfazem a natureza humana. Em busca dessa alma como um todo e de encontrar o sentido da vida, caminhamos para nossa interioridade, experimentando conhecimentos inéditos.
O Efeito Sombra é título de um livro de Deepack Chopra (recomendo que corram às livrarias, já li e indiquei a vários pacientes), e também já é filme, que entrará em cartaz brevemente nos cinemas. Ele retrata ricamente, através de exemplos, sobre o conceito junguiano de sombra.  Na análise da estrutura psíquica, deparamos com vários arquétipos (registros do inconsciente coletivo, referente a imagens arcaicas típicas ou primordiais), entre eles, a sombra.
A sombra refere-se a conteúdos reprimidos como frustrações, omissões, vergonhas, medos, que guardados, tomaram dentro de nós formas negativas e potencializaram-se, sendo refletidos em nossos comportamentos, como atos indevidos ou com proporções indevidas. São as compulsões, “defeitos de caráter”, tidos como comportamentos doentios, que atuam internamente, através de impulsos sem freios, sem limites,sem equilíbrio. E que tantos estragos causam na vida. Agressões, estupidez, atos invasivos, desrespeito a alguém ou a natureza...desde graus leves aos mais altos. Um moralismo hipócrita é carregado de sombras profundas...o marido que fica vendo pornografia enquanto a esposa  prepara o jantar,  é sombra; as cadeias estão cheias de histórias onde a sombra atuou e a pessoa cometeu um crime.
A sombra é escura e misteriosa. E pode ser perigosa. É tudo o que de nós procuramos esconder... artimanhas, estratégias, jogos de relacionamento, tudo o que tenta mostrar o que se deseja que seja visto, em detrimento de que a verdadeira intenção apareça. Alí também está a sombra. O perigo maior está em ignorá-la. Não se pode lutar com a sombra, mas sobre ela pode-se jogar luz. Aí está um grande desafio, confrontar nossos aspectos sombrios e torná-los luz internamente. A consciência do que somos nos humaniza; nos desenvolve.
Integrar a sombra é ficar um pouco mais inteiro, encontrar nosso elo perdido... afinal, só podemos crescer  para o lado que ainda não foi desenvolvido.
*Maria Cristina Recco é psicoterapeuta junguiana (CRP 08/1453)





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