"O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam"

Guimarães Rosa

7 de mar. de 2012

RESPONSABILIDADE E PROXIMIDADE:Considerações acerca dos vínculos na sociedade contemporânea.


Talita Maria Marcomini*

A nossa sociedade contemporânea vem sendo comparada, por vários estudiosos, à Era do Vazio. Mas, o quê seria esse vazio? Ele remete-nos ao vazio do ser, ao ontológico, ao vazio ocorrido na subjetividade existencialista do ser que tantas angústias têm gerado em nossas vidas. A sociedade pós-moderna dominada pelo sentimento de saciedade e consumismo, do ser-se jovem a todo custo, banaliza os relacionamentos afetivos, no que tange ao estabelecimento de vínculos e compromisso. Bauman (2004) refere-se ao mundo moderno como líquido, no qual nada é permanente, tudo que parece sólido se desfaz de forma contínua. Na era do vazio, o homem busca o prazer fugaz e instantâneo, onde o indivíduo busca em si próprio sua satisfação, através de um distanciamento do outro, gerando, assim, um vazio emocional.
Bauman (1998) cita Dostoievski quanto à responsabilidade do ser humano sobre a humanidade: “Somos todos responsáveis por todos os homens perante todos, e eu mais que os outros.” Esse conceito de responsabilidade, aqui, se faz importante, uma vez que, a meu ver, através dele podemos retomar o sentimento de ser humano, e conseqüentemente, vivermos numa sociedade que olha para o outro também, e não apenas para si mesmo. Levinas (apud Bauman, op.cit) coloca que a responsabilidade pelo outro existe “apenas” por ele ser um ser humano. Assim, amplia-se o conceito de responsabilidade, já que atualmente observa-se que se ele não é meu pai ou minha mãe, “então, eu não quero nem saber”. Isso, quando ainda se importa por ser pai e mãe. Um dia, um adolescente me disse que se alguém perdesse a carteira bem em sua frente, ele não a devolveria. Por quê? Porque, segundo ele, ninguém faria isso para ele.
O conceito de responsabilidade, descrito acima, não implica em reciprocidade, ou seja, se é responsável pelo outro sem esperar reciprocidade. “Se o outro olha pra mim, sou responsável por ele, mesmo não tendo assumido responsabilidade para com ele. Minha responsabilidade é a única forma pela qual o outro existe para mim, é o modo da sua presença, da sua proximidade.” (Levinas apud Bauman, op.cit). Atualmente, não se vê esta responsabilidade ou então, acha-se que até se tem responsabilidade pelo outro, enquanto esta implicar em reciprocidade. E hoje em dia, nada mais é feito, sem esperar algo em troca. “Só amo você, porque você me ama”. Isto fica subentendido nos relacionamentos atuais, tudo acontece na base de troca, esperando sempre receber do outro aquilo que lhe foi dado, como se não tivéssemos dado ao outro, e sim como se algo tivesse sido retirado de nós e devesse voltar.
Quando você desumaniza, a partir do momento em que não se considera tal responsabilidade, se perde a ética e isso acarreta conseqüências muito maiores, como por exemplo, o caso do Holocausto. Mas, não precisamos ir tão longe para vermos exemplos. Cada vez mais as pessoas traem seus parceiros afetivos, e a falta de responsabilidade (na concepção utilizada aqui), de compromisso com o outro, propicia esta atitude, levando cada um a não sentir com outro, mas sentir apenas sozinho.
Desta maneira, quando negamos essa responsabilidade, afastamo-nos uns dos outros, e quando me distancio do outro, tudo se torna vazio. Pois acredito, eu, que o ser humano é um ser de relação, e sendo assim, necessita do outro, pois, “para termos amor-próprio precisamos ser amados”. (Bauman, 2004). “Aceitar o preceito de amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. [...] Amar o próximo pode exigir um salto de fé. O resultado, porém, é o ato fundador da humanidade. Também é a passagem do instinto de sobrevivência para a moralidade” (Bauman, op.cit, p.99).
* Talita Maria Marcomini é psicóloga (CRP 08/11501)   
Para saber mais:
Bauman, Z. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
Bauman, Z. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

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