"O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam"

Guimarães Rosa

6 de out de 2011

VIDA A DOIS: POSSIBILIDADES E DESTINOS


Karla Mariana Fernandes Guimarães*
Olá! Proponho aqui uma reflexão sobre os relacionamentos amorosos. Partirei do pressuposto de que todas as pessoas, inclusive as solitárias, são seres que estão constantemente à procura de convivência. Nós, estudiosos de psicanálise, entendemos que nossas vivências mais primitivas, em especial com as pessoas que nos cuidaram, formam o protótipo para todas as vivências posteriores que viermos a ter.
Aceitando a idéia de que o ser humano percebe o mundo através de “lentes” inconscientes, pode-se pensar que um encontro amoroso é um encontro inconsciente de duas personalidades que procuram uma na outra aspectos que não foram desenvolvidos em si, e vêem a possibilidade de satisfação das demandas emocionais. Como se fosse um ímã para as identificações entre ambos.
Além das identificações, outro mecanismo que entra em cena nesse período é a projeção. O casal projeta um no outro todos os desejos e demandas afetivas, e projeta também o senso crítico, ficando à mercê da paixão aflorada. Neste estado de paixão o casal é capaz de passar dias trancado num quarto vivendo apenas de amor, ou de um chocolatinho e água de vez em quando. Tudo o mais fica num plano secundário. Esse processo é necessário para que aconteçam as uniões amorosas. De que outro modo você se relacionaria com uma pessoa que escuta músicas que você detesta, ou tem hábitos que você julgaria abomináveis se fossem praticados por qualquer outra pessoa do mundo?
Conforme o tempo passa a paixão ameniza, a realidade externa volta a surtir efeito e os pombinhos têm a possibilidade de enxergar um ao outro de maneira mais sensata e isso cria algumas possibilidades: O casal pode separar-se nesse instante. O que quer dizer que as identificações não foram sustentadas. Ótimo, se não deu certo, melhor é acabar logo. Pode acontecer também de o casal, mesmo depois de readquirir o senso crítico, continuar admirando um ao outro e ficar junto, ocorrendo a possibilidade de uma união sólida e saudável. Melhor ainda!
O pré-requisito para uma união sólida e saudável é o estabelecimento de um vínculo afetivo, que compreende a união de aspectos subjetivos entre o casal e modificações subjetivas em ambos durante o relacionamento. Para que esse vínculo se estabeleça cada um do par precisa abrir mão da identidade prévia, dos sentidos pessoais, aceitar as identificações provindas do outro e as identificações criadas pelo próprio vínculo entre eles. Nesse momento é natural surgir um colapso identificatório, que implica no questionamento de certezas, convicções, sonhos e planos prévios de cada um. Por exemplo: o sonho de uma moça em ter vários filhos se chocando com os objetivos de um rapaz que sonha trabalhar e viajar muito antes de ter filhos, isso se os tiver...
Inegavelmente, é comum acontecer de o casal manter-se unido e demasiadamente envolvido em seus conteúdos inconscientes, de modo a estabelecer um conluio inconsciente em que cada um fica responsável por suprir as demandas do outro. Esses não conseguem criar um vínculo afetivo, comungam apenas de um contato.
Quando um do par se cansa de servir de apoio emocional ao outro ou o outro percebe que não está tendo as demandas satisfeitas, iniciam os conflitos. As brigas acontecem e em casais mais doentios, até agressões físicas. Contudo, a separação não acontece. O casal parece viver em sintonia com as lamúrias e ameaças. Um não consegue viver sem o outro mesmo que seja “aos trancos e barrancos”. Se por qualquer motivo, um do par cresce emocionalmente, amadurece, impunham-se duas saídas para eles: ou o outro utiliza seus recursos internos para amadurecer também, ou a separação acontece.
Quando a saída escolhida por este tipo de casais for a separação, ela pode ser considerada um mecanismo utilizado para não ficarem fundidos um com o outro. Claro que é uma defesa fóbica diante da sensação de sufocamento, porém, extremamente saudável. A separação pode ser um convite à realização de luto e reflexão – estados de mente necessários para que cada um possa elaborar coisas mal resolvidas interna e externamente – poder tornar-se disponível a novas projeções e identificações mais saudáveis e estar aberto realmente ao estabelecimento de vínculos afetivos.

* Karla Mariana Fernandes Guimarães é psicóloga (CRP 08/15469)

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